Cegonha: 15 anos

Foi a meia noite do dia 17 de fevereiro de 2000 que eu cheguei a maternidade, embaixo de um temporal que alagava o Méier, no Rio de Janeiro. Com o pré-natal embaixo do braço e cheia de medo, fui examinada por uma médica peruana que demonstrando imensa má vontade, sentenciou que o bebê não era pra agora, eu poderia aguardar em casa. Sentei no banquinho do lado de fora, com a minha malinha, magoada por não ter sido ouvida e nenhuma coragem para ser guerreira. Algum tempo depois, a obstetra resolveu me internar,  irritada pela queda de braço silenciosa que sem intenção eu havia iniciado. Fiquei na ala de gestantes: Sangrando, sozinha, a dor aumentando, sem assistência  e intuitivamente dando andamento as boas práticas do parto: caminhando, me apoiando de cócoras na escadinha onde a dor parecia diminuir. Foi a menina da limpeza que me achou chorando baixinho pra não acordar as outras na enfermaria e me deu a mão: “Ô, minha filha, vem que eu te ajudo, vou acordar quem tiver que acordar pra te ajudar.”

Fomos andando até a sala de parto, eu e a ASG. A única que me olhou como gente. Um corredor cumprido e ela me pegou na mão. Nunca soube seu nome, mas gostaria de ter sabido pra agradecer todo dia em oração.  Quando abriu a porta, uma técnica foi logo me deitando:

– Esse ferro aí do lado é pra fazer força, quando vier a contratação faz força pra baixo. Ah, e não grita, não, que a doutora de hoje não gosta. Deixa as mulheres que gritam ai mofando. Só chama quando sentir vontade de fazer coco.

Eu só procurei a médica nazista uma única vez, quando veio a tal vontade. E com a criança já coroada fui indicada a caminhar novamente do pré-parto ao parto, onde fui humilhada muitas vezes, a última delas, quando me entregou meu filho e batendo na minha coxa disse: “até o ano que vem”. Como se viesse dela o sustento pra quantas bocas eu fosse parir.

Por causa desta cena, perdi quase o primeiro ano de vida do meu filho, atormentada por uma depressão e um desejo de morte. Felizmente o amor é maior e vence, mas há 15 anos me roubaram os dedos e não os anéis.

Hoje eu me orgulho do nosso Grupo da Maternidade. Andorinhas tentando fazer um verão mais azul para outras mulheres, se eu pudesse doar mais, acelerar processos, autorizar, validar, tudo seria pra ontem,  porque toda mulher merece sua “Perinatal”, seu momento.

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Esperando na Janela

As vésperas de colher mais uma primavera estou aqui, mais um sábado a noite, sem convites, sem idéias, olhando o mundo pela tela do computador e convicta que alguma coisa deu errado na minha vida. Começou lá atrás, na minha formação. Deformou-se de modo aparentemente irreversível.

Vejo nas redes sociais os amigos de infância, de início de adolescência. Eles se agruparam em interesses comuns e se freqüentam até hoje. Por que será que não fizeram questão de manter o contato comigo? É forte o que vou dizer, mas sinto inveja desse laço. Hoje não há quem relembre uma travessura comigo, não tive quem batizasse meu filho… Seus padrinhos são meus pais, porque naquele momento de necessidade, não houve quem ficasse, em quem eu pudesse confiar que se um dia eu faltasse, acolheria meu filho. Vejo as pessoas daquele tempo casando, nunca sou convidada, claro. Vejo as festas de aniversário, reencontros, despedidas, nascimentos… De nada faço parte. Sou uma foto no perfil das redes, como se nunca tivesse existido de fato ou seja só “você lembra dela?”

A sensação que eu tenho é que nunca existi.

Quando comecei a sentir que as pessoas não sentiam minha falta, fui me afastando mesmo. Pensando “Eu que não vou correr atrás”. Hoje acho que deveria ter corrido. Deveria ter me feito presente, perguntado se houve mágoa, pedido desculpas por qualquer coisa. É muito triste vagar pelo mundo.

Hoje quando meu telefone toca é trabalho ou alguém pedindo ajuda com algum problema de saúde seu ou de terceiros (mais trabalho). Agradecem o favor, mas não retornam para convidar para o aniversário, só mesmo para pedir de novo.  Eu sempre digo que não vou atender nunca mais, porém, acabo sendo solícita sempre, admitindo que é só mesmo pra isso que devo existir. Já andei pensando em quando aparecer #AoVivo na rede, eu ligar e me convidar:

– Lembra aquela consulta? Pois é. Me paga ela me incluindo na tua Pool Party?

Mas acabo achando que sou mais que isso. E aguardo o carinho de ser lembrada. Talvez por outras qualidades que não seja o cargo que ocupo hoje.

espera

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Bem Vindo ao Novo

Devo começar minha retrospectiva lamentando não ter sido “blogueira” no ano que se encerra. Algumas vezes quis vir contar ao mundo minhas irritações, mas acabava sendo vencida por uma preguiça digital-existencial-filosófica e deixava para depois, até que nunca chegou.  Lamento não mais pela pouca dedicação ao sonho de ser lida, mas porque tenho a memória curta e, muitas vezes, consulto memórias aqui deixadas como quem olha fotografias antigas. Paciência! O tempo não para, como diz o poeta e muito se perdeu.

Em 31 de dezembro do ano passado contei de um certo desentendimento com uma chefe, por ter me afeiçoado a quem era seu desafeto, e “dei de ombros” para aquela situação, afinal, ela não poderia mudar nada na minha vida. Vida! Que grande roda gigante é esse brinquedo. Depois que pedi demissão para assumir um emprego que não existia, tomei um prejuízo danado em rescisão contratual, implorei meu emprego de volta e retornei ganhando a mesma coisa e sem qualquer respeito profissional (que era o que mais almejava quando pensei em partir pra outra), em julho, meu telefone toca e… Adivinhem? Era a minha ex-atual chefe. Como se nada tivesse acontecido, ela me convidou para assumir também a Comunicação do hospital que agora ela dirige, melhorou meu salário e, se não somos as melhores amigas (sequer de Facebook) me senti muito valorizada em ser lembrada, convidada, ouvida profissionalmente, apesar das divergências pessoais do passado.  Nada mal para quem terminou o ano passado com a cabeça na guilhotina do mercado de trabalho.

Aliás, posso dizer que 2014 foi um ano próspero: recebemos algum dinheiro que estava retido por ai, nas mãos da justiça e  isso virou um pezinho de meia para, quem sabe um dia, conseguimos resolver a compra de uma casinha onde a gente não tenha que dividir com outros herdeiros barulhentos, viciados e sem noção.

Consegui dar presente de natal pra família toda, com filho em destaque, claro, sem que eu precisasse de rateio com ninguém. Fico tão feliz quando me sinto capaz de produzir!

Minha afilhada fez um ano, foi uma festa sonhada, planejada, cara e suada que valeu a pena. Ela certamente não vai se lembrar, mas foi uma realização pessoal poder contribuir com este momento. Falando nisso, esse ano levamos o maior susto: por erro médico, a menina que tinha apenas uma gripe quase foi medicada como Meningite no Hospital Memorial Fuad Chidid. Noite de tensão que acabou com um “sinto muito” da médica. Esse merecia um post “Fê da Vida”, se eu não estivesse tão emudecida.

Gustavo acabou o Ensino Fundamental, fez concursos para escolas públicas do Ensino Médio, mas com todo aquele empenho que lhe é peculiar somado a esse sistema de cotas excludente das camadas da população que ralam pra educar com qualidade seus filhos, não deu em nada.  Próximo ano é fazer pesquisas escolares e torcer para que os bons ventos profissionais continuem soprando para que eu possa custear essa nova etapa da sua vida.

Quanto ao coração… Antes motivo de uma leve vibração, alvo de brigas e chororô, como sempre era coisa da minha imaginação fértil que enxerga amor em terreno de desilusão. Tudo como antes. Não era pra ser. Que venha o ano novo!

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Gente, tenho recebido muitas mensagens de pessoas interessadas em comprar meus banners de botecos. O propósito do blog nem era esse… Mas pagando bem, que mal tem?

Então, resolvi divulgar as artes que tenho com esse tema que está super em alta.

BOTECO

Dá para pedir só a arte (Jpeg alta resolução) e dá para encomendar o banner pronto, neste caso, o valor depende do m2 da impressão. Mas se você quiser personalizar a sua festa como o Neném e os Pedros, eu penso em uma arte exclusiva para você, é só deixar o seu comentário que entro em contato.

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Sobre bailarinas e jornalistas

Acho que todo mundo viu isso, né?

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E, muito provavelmente, não só você viu como está enaltecendo o Fausto Silva pela incrível atitude de defender suas bailarinas. Ou não. Está achando ele escrotíssimo por ter sido rude com a tal ex-BBB.

O caso é que essa polêmica toda foi gerada pela desvalorização das “meninas de palco” do Faustão. Realmente, todas as profissões merecem respeito. Em meu trabalho, tenho de auxiliares de serviços gerais  a médicos e, todos, de igual forma, me são caríssimos e dignos da minha educação e respeito. Mas e quanto a mim? A jornalista? Eu me sinto desrespeitada.

Não ganho o que eu mereço. Se virar as costas vai ter uma fila de candidatos para receber até menos. E, muito provavelmente se a ex-BBB dissesse que apresentaria o Vídeo Show, o Globo Esporte, não teria recebido a mesma antipatia. Até porque, né? Tem tantos atletas e ex-modelos a frente de programas de TV, sem que ninguém exija 4 anos de formação e mais a especialização de TV.

Seria apenas mais uma a tomar o meu lugar, ou de qualquer outro jornalista subutilizado por falta de um mercado que nos defenda, remunere, reconheça. Este é o nosso país.

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Sei lá. Entendem?

Não ando com vontade de falar nada. Claro que continuo vendo as coisas desse Brasil e me revoltando com 82% dos descasos, desmandos, desserviços, etc. Mas é que não tenho mais aquela válvula motora de sair “dando uma voadora”. É como se eu tivesse desistido de ser o papagaio que apaga sozinho o fogo da floresta.

Outro dia mesmo o povo estava efervescente, indo para as ruas… Só que foram lá para vandalizar, escandalizar, se perderam do objetivo. Muita gente diz que é golpe político, gente infiltrada, que seja, mas se o objetivo fosse claro, se o ideal fosse honesto, não  teria como contaminar a massa. Foi tudo se amainando e hoje ninguém mais se lembra daqueles centavos da passagem e, quando se reúnem é pra quebrar vitrine de loja.

Não sei bem se o recado foi dado. Se o povo realmente aprendeu como se faz. Ou se nos enfiaram goela abaixo mais uma vez o jeitinho de transformar tudo em pizza sabor amargo.

Preferi me alienar. Estou meio afastada das notícias, a não ser aquelas que me obrigo a saber até pelo meu trabalho, mas que não fariam diferença ao blog (embora muitas delas também me deixem Fê da vida). Como quem não lê, não escreve…

Acho que também estou afastada de mim: estudei jornalismo para me admirar com o novo, criticar o falso, estar a serviço do social, mas não é assim que nada acontece. O sistema é foda, como diria o Capitão Nascimento. Ele prende e sufoca. Não há nada que eu possa dizer de relevante.  Eu só ando pensando: Será que realmente em algum momento a vida vai melhorar?

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E 2013 foi tarde

Quanto a este ano só penso que deveriam cortar-lhes os dias. Sabem a lógica do ano bissexto, em que acrescenta-se mais um dia, em fevereiro, para manter o calendário anual ajustado a translação da Terra? Então. Podiam descobrir que não era nada disso, contamos dias demais e, por conta deste fato se diminuriam alguns meses deste tal ano da graça de dois mil e treze.

Graça? Não. Não teve graça nenhuma.

No ano passado terminei dizendo de algo que andava acelerando meu coração. Sim. Foram semanas maravilhosas. Como adolescente que descobre o mundo. Mas havia um impedimento nos processos de trabalho e não é que, logo em janeiro, minha ex-chefe, que era o principal entrave descobriu tudo?  Em uma ida ao shopping meu mundo caiu. Simples assim.

O antídoto foi entender que não estava perdendo nada com a descoberta. Na verdade acabei me libertando, ainda que do modo mais doloroso. Pensei: O que ela mudou minha vida até agora? No que ela pode mudar? Nada a duas perguntas? Então… Minha vida que segue. Emagreci e a saia justa acabou me cabendo como luva.

Diante disso, o jeito foi curtir meu aniversário. Várias comemorações: Festa no boteco da Guaiuba com o pessoal do hospital, alguns amigos extras e mais alguns pacientes que ajudei e tiveram a gentileza de comparecer (e trouxeram presentes fofos). Depois, uma amiga radialista me presenteou com um show do Roupa Nova, na Ilha do Governador. Lá fui eu de rainha, com acompanhante. Depois, almoço com a família, com direito a tradicional torta de chocolate da mamãe. E quando achava que não tinha mais o que festejar, me pegam em uma festa surpresa no hospital. Meu Deus! Fiquei emocionada! Em 2011 sequer me cumprimentaram e este ano gente de todos os setores. Realmente surpreendente, afinal de contas, achava que havíamos nos resolvido na Guaiuba. É legal a gente se sentir querida, principalmente depois de tudo que chorei por causa da situação com a ex-chefe que me tratou como se eu fosse qualquer coisa.

Enfim… Parecia que a vida estava estabilizando. Realmente me senti feliz depois de muito tempo. Foi então, que uma amiga, que também trabalhava comigo (dessas pessoas que curtem a vida como se não houvesse amanhã) fica doente. Primeiro foi uma trombose, que conseguimos contornar com eficiência. Na sequência, a dor não passou e começaram a tratar como gases, que nunca eram elimidados. Até que a notícia cai como bomba: Câncer avançado no útero. Foram 8 meses do diagnóstico até a perdermos para a doença. Ainda não posso acreditar nessa notícia!

Durante essa correria, Gustavo fez 13 anos. Uau! Já tem barba, bigode e não está nem aí para o barbeador que lhe dei de presente no aniversário. Fomos em uma churrascaria, como uma família: Ele, eu, André, D. Lúcia, Felipe e a namorada e a Bruna. Teria sido bonito se tivéssemos chegado até ali juntos, mas eu nunca me senti realmente parte integrante disso. Na verdade, acho que nunca fui parte integrante de nada. Não sei muito bem onde é meu lugar. Sempre acho que estou incomodando e incomodamente instalada na vida dos outros. Talvez eu faça análise algum dia.

Em abril, ganhei uma afilhada. Participei do parto (que foi difícil), cortei o cordão umbilical e me apaixonei. Sempre achei minha madrinha incrível! Tenho grandes lembranças dos meus padrinhos na infância: O melhor brinquedo, as férias na casa deles (que ainda eram casados), os passeios, os primos… Acho que muito por conta disso sempre quis ser “dinda”, mas… A primeira vez que me convidaram, me desconvidaram logo em seguida e depois, não tinha tantas possibilidades. Não tenho tantas amigas, cada dia tenho menos, aliás, e as minhas primas nunca me deram a honra. Veio da minha sobrinha o convite e, me emocionou. Aceitei de coração mesmo, sou apaixonada pelo meu “quindim”.

Chega maio e acaba o recreio. O poderoso chefão pede um Simpósio para os médicos que não comparecem e ele, pra variar, culpa a falta de comunicação. Claro que ele não vê que a empresa toda está infeliz e desmotivada e o não comparecimento é um jeito de dizer: “não estamos satisfeitos”, mas claro que é melhor colocar a culpa em alguém. Cansaço! Vou remoendo isso até 28 de setembro quando recebo convite pra trabalhar em uma agência. Dia 30 do mesmo mês peço demissão, informando que ficaria apenas para a missa de um ano em memória do falecido diretor administrativo.  Depois de tudo combinado, o Paulo, diretor da tal nova empresa me liga dizendo que “sente muito mas não tem mais a vaga”. Desespero! Já tinha pedido pra sair sem aviso prévio, pego todo mundo de calça arriada  e ai? Para fechar com chave de ouro: consigo meu cargo de volta, perdendo 2 anos e meio de emprego, ganhando a mesma coisa e sem carteira assinada como antes até sabe Deus quando.

Fico revoltada, procuro um advogado pra entrar com ação contra o tal do Paulo e sou informada que não posso fazer isso, porque pode prejudicar o antigo amigo de faculdade que me indicou ao emprego. Prejuízo. Entro em contato com o escritório de advogados da Rádio Tamoio que ainda não me pagou pra ver se posso passar por cima do Dr. Rafael (Aquele que se dizia meu amigo e esqueceu da causa) e consigo receber o que eles queriam me pagar. Não me retornam. Leio no jornal que agora os antigos processos de trabalho podem ser definitivamente arquivados depois de um prazo porque os patrões safados, coitadinhos, não podem sofrer prejuízos que não estão esperando tanto tempo depois. É. Parece que mais um prejuízo!

É, Max Gehringer, você não serve pra minha vida! Estou totalmente perdida, estagnada, triste. Mas em 2013 muito mais que em 2012. Que daqui pra frente hajam boas novas. Feliz ano novo!

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