Chá de Cadeira

            No dia seguinte, vou até a delegacia mais próxima e me informo onde posso registrar a ocorrência. Chego ao distrito na Praça da Bandeira, Centro do Rio às 13h e sou a terceira da fila. Como havia faltado ao trabalho, já comemoro: vai dar tempo de ir à Caixa Econômica tirar o novo CPF e ainda ao Detran resolver a CNH. Meio problema resolvido, certo? 

           Errado. Comemorei cedo de mais. Eu desconhecia o fato de ser o dia do aniversário da delegada. Apenas duas recepcionistas e uma senhora faziam o atendimento. Quer dizer, essa “uma senhora” também se retirou após o atendimento das pessoas a minha frente, afinal, havia um rega-bofe no restaurante ao lado, que ninguém podia perder claro. Que importa que são servidores públicos e deveriam estar, como o nome diz, a serviço da sociedade?
             Quando passou pela recepção ela esbravejou:

           – Ora onde já se viu, eu também sinto fome. Ninguém voltou, eu vou almoçar. Segura aí, fulana, que vou pedir o inspetor não sei quem para vir me render.           

            Muito justo. Às 14:30h, qualquer ser humano normal, já não agüenta mais de fome. O problema é que para a tal rendição chegar, passaram mais de 40 minutos. Nessas horas é bom nem olhar muito para o relógio. Porque dá vontade de fazer justiça, ligar para a corregedoria, para os colegas jornalistas, para o Papa, armar um fuzuê daqueles, mas… Hoje em dia, não se sabe se temos mais medo da polícia ou dos bandidos.           

            Fico ali, esperando e engolindo a indignação a seco. Enquanto isso, reparo o seguinte quadro na parede:

         

Daniel Blanco

Foto: Daniel Blanco

          Bem, será que quando fizeram essa visita, avisaram antes? Provavelmente não era também aniversário de ninguém importante no distrito.As mídias vivem mostrando o governador, o secretário de segurança, o comandante das polícias choramingando falta de contingente, de equipamentos para trabalhar… Mas será que não falta também um pouco de boa vontade? O pessoal já faz concurso público pensando em ter regalias e não ter patrão. Ora, patrões deles somos cada um de nós. No dia seguinte ainda sairia nos jornais outro arrastão no mesmo lugar, mas eles estavam na feijoada da doutora delegada, ao invés de estarem em seus postos defendendo o cidadão e prestando atendimento eficiente na delegacia (ao menos para fazer jus ao prêmio pendurado na parede).
               Enfim, chega o inspetor, faço meu registro de ocorrência, às 17:39h – nunca hei de esquecer essa hora -. Ele com a cara macia de tanta feijoada e eu de testa franzida de tanto descaso. Mas isso, não seria tudo…         

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