O preconceito que ninguém vê

Dois jovens de 18 anos e um de 16 estupraram uma adolescente de 15 anos, no interior de Santa Catarina.  A menina ficou embriagada em uma festa, após ingerir Vodka com guaraná, segundo divulgado na imprensa. Os rapazes, a levaram para o banheiro, e lá com a vítima desacordada executaram o crime. Os mais velhos abusavam da moça, enquanto o mais novo filmava a ação. O vídeo foi parar na Internet. Quem denunciou o caso foi um quarto rapaz, porque há indícios de que a vítima tenha sido coagida a não se manifestar.

Esperei um pouco pela manifestação da opinião pública antes de escrever o post. Para dizer a verdade, esperava que reacendesse a discussão de diminuição da idade penal, para que o tal cúmplice fosse então severamente responsabilizado, mas não foi o que aconteceu.

Lembram do caso João Hélio? Para quem não lembra (ou não conhece a história) o menino de seis anos morreu após ser arrastado por mais de sete quilômetros, preso ao cinto de segurança do carro da mãe que havia sido roubado momentos antes. Dentre os envolvidos no crime, estava também um jovem de 16 anos. Por conta disso,  durante semanas discutiu-se a necessidade de reduzir a maior idade penal, para que se pudesse responsabilizar o monstro que arrastou a criança, sem piedade.

Ora, por que o monstro que participa de um estupro não gera a mesma comoção? Alguém vê diferença de “feiúra” nas situações? Claro! Todo mundo vai dizer: “o menino era só uma criança!”. Concordo. Mas dirão também: “Essa jovem, estava bêbada em uma festa, provocou a situação”. Aí eu digo: Não sejamos hipócritas! Afinal, quem nunca aprontou na adolescência? Quem um dia não se excedeu entre os amigos? E, por conta disso, seguramos a placa de “Faça-me vítima?”. Porque a conduta dos outros é sempre pior, meus caros?

Vamos abrir os olhos. O que temos aqui é um clássico! Outra vez em cartaz: “só filho de pobre é marginal e deve ser punido severamente”. Os três estupradores são estudantes de Administração, possivelmente de famílias no mínimo remediadas. E aí, o que a imprensa faz é consultar uma psicóloga que diz: esse é um problema da má formação, onde os pais ausentes acham que compram educação apenas pagando escola e não é só disso que uma criança precisa. Lindo o discurso, não?!

Então vamos mais a fundo… Não estamos falando só de rapazes de classe média, trata-se também de um crime contra a mulher. Coisa bem medieval, mas que a nossa sociedade ainda permite. Nós, mulheres é que provocamos o instinto selvagem dos maníacos e pedimos para sermos violentadas. “Prendam suas cabras que meu bode está a solta”, diria bem meu avô e sua mentalidade retrógrada.

Temos que acabar com essa alienação e fazer cumprir a lei de maneira igual, exatamente como rege nossa Constituição. Se é para queimar na fogueira, que seja fomentado de assassinos pobres de criança, e estupradores remediados de jovens desavisadas, porque no “frigir dos ovos” o que muda é a nossa falta de consciência para algumas coisas e a falta de senso crítico para não vivermos tão manipulados pela opinião dos outros que são veiculadas na mídia.

E, só para lembrar, eles não mataram a moça, mas poderiam. Para ela que vai conviver com essa lembrança para o resto da vida, será que não é uma experiência de morte em vida? A vitória de Obama, nos Estados Unidos, foi apenas um primeiro passo para a profunda mudança cultural pela qual devemos passar. Enfim, pergunte a si mesmo: qual o endereço do seu preconceito?

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Arquivado em Opinião Pública

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