Direito de quê?

     Chego ao departamento às 13h. Claro! Hora de almoço. Sento na salinha com ar condicionado, TV LCD sintonizada no jornal da tarde, cadeirinha confortável, não dou ouvidos ao senhor ao lado que reclama de ter chegado às nove da manhã e, quase me esqueço que passam duas horas de um belo chá de cadeira até que chamam a primeira senha: 511. Olho para o meu papel: 631. Digo para mim mesma que não há motivos para choro.
     Resisto a fome (o funcionário público tem lá seu horário generoso de almoço, o requerente, tem medo de sair para o lanchinho e não ouvir chamarem sua senha), me oferecem água gelada.
     Ouço a voz alta: “o que mais a senhora quer da vida, hein?! TV, Ar, água gelada, dá até para esperar, hein?!”
     Espero. Espero. Levanto. Outro copinho de água. Um ambulante passa na porta vendendo balinha. Tapeio a fome. Sento. Espero. O jornal passa a ser Vídeo Show, que vira Vale a Pena Ver de Novo, até que chega a Sessão da Tarde. De-zes-se-te-ho-ras já marca meu relógio. Tempo arrastado, chega minha senha.
     Diga-se de passagem, minha vez chega por desistência dos mais fracos, não por ver andar a fila. Com um belo bocejo sou atendida. Uma esfregada de olhos. Uma espreguiçada. Deixa ver o que posso fazer por vocês.   
     Parênteses aqui: O dia inteiro, todos os dias, muitas mulheres procuram o departamento para requerer a pensão deixada pelo marido, companheiro, pai, etc. Todos-os-dias, mas para me dar uma informação: bocejo, esfregada de olhos, espreguiçada, e “deixa ver o que posso fazer por vocês”.
    Sou encaminhada a outro departamento que diz que o sistema passou o dia inteiro fora do ar: – A senhora não sabia?! Não podemos fazer nada, volte amanhã, diz que esteve aqui hoje…
     Percebem alguma semelhança com “O Processo”, romance de Kafka publicado em 1925?! Meus caros, não terá sido mera coincidência. Tal como Josef K. estamos presas a burocracias sem fim, que nos congela dentro do mundo sem motivos aparentes. Sufoca! Irrita! Nos faz sentir COMO CÃES! Sim, meu senhor, eu queria mais da vida!

1 comentário

Arquivado em Cotidiano, Descaso

Uma resposta para “Direito de quê?

  1. Alexandre

    O Processo, muito boa peça, o mais triste foi sair da peça e ouvir alguns estudantes com críticas típicas de quem não entendeu NADA.
    Valeu a indicação Fê.

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