Infância Perdida

No dia 27 de setembro, o hospital onde trabalho distribuiu doces as crianças. Quem diria?! Eu que vim de uma família tradicionalmente evangélica, organizando festa para santos. Ossos do ofício. Não posso é perder esse emprego, já dizia o Cascatinha. Enfim, deveria estar chocada em ter que passar por cima das minhas crenças religiosas, mas algo maior me chamou a atenção: As crianças!

O hospital fica bem no meio de uma comunidade, portanto, parece um oásis naquela confusão de becos e vielas. Os pequenos brotam do chão. E não há como não comparar com meu filho àquela realidade. As crianças, mesmo os menores, chegando sozinhos, aos montes. Quer dizer, sozinhos, não. Muitas vezes de mãos dadas com outros do mesmo tamanho ou um pouco maiores, que não poderiam responder nem por si.

Quase em totalidade, tinham algum tipo de dermatite (feridas mesmo pelo corpo, também aquele famoso “pano branco”) ou estavam com coriza espessa descendo e ainda assim, descalços, visivelmente sem tratamento. Você pensa: os pais têm que trabalhar, afinal de contas. Mas a criança não pediu para nascer. Será que não poderiam ao menos deixar água fervida para eles tomarem banho, beberem… Não sei! Tive pena daquela infância tão maltratada.

E aqueles que eram um pouco maiorzinhos?! Esses já tinham jeito malandro. Querendo me passar a perna para levar mais de um saco. E, confesso alguns até conseguiram mesmo, porque eles já estão especializados em cegar quem está longe daquela realidade.

As meninas, aos 14 anos, já colocam as mãos nas cadeiras e querem te enfrentar. Falam palavrão muito mais que o Português… Aos 16, já levam um filho no colo e querem doce para eles e para elas. Como se não tivesse já aberto mão da infância há tempos atrás. Será que souberam algum dia o que é isso? Na mesma idade que elas, descobria o primeiro namoradinho, e mesmo assim, ainda falava com as minhas Barbies, como quem não quisesse se despedir de todo aquele cor de rosa.

Não que minha vida tenha sido fácil também. A família não tinha lá muito dinheiro. Mas sempre cuidaram de mim (até mais do que eu precisaria, rs). E, hoje, meu filho também é assim. As fronteiras dele têm limites. Não raro, ficamos no portão esperando que ele vá a padaria, para nos certificarmos que tudo deu certo. Palavrões, nenhum! É uma criança cordata, razoavelmente educada… Não enfrentaria um adulto. Larga tudo para ler uma revista, um livro… Praticamente como se pertencesse a um universo paralelo. Lembro é que eles é que estão a margem.

Acho que não deveríamos dar doces, mas atendimento médico para cuidar daqueles rostinhos já tão maltratados. Deveríamos lutar pela educação integral, para que os pais trabalhassem sem roubar dos filhos sua infância. Deveríamos adotar o Brasil e fazer dele um Estado igualitário, para que crescêssemos com ele.

4 Comentários

Arquivado em Descaso

4 Respostas para “Infância Perdida

  1. Pois é amiga.
    Fui lá na minha infância nesse período, onde eu mesma me misturava a esses que vc descreveu. Era a única ocasião em q eu via a cor da liberdade e subia e descia morro com os meus “vizinhos” da favela. Ali éramos todos iguais, mas eu devia ser uma flor no deserto, porque apesar de querer ser favela, eu tinha cuidados de princesa.
    Partindo de um hospital, não deveriam dar doces, mas atendimento nesse dia né?

  2. Realmente, Fê… é triste … quando eu vou p os PSF no meio das comunidades fico com a mesma dor no coração, as mesmas cenas de garotas que perderam ainfância para da-las a outra criança q vi viver esa mesma situação….
    E todo esforço ainda é pouco pq é o governo que tem dinheiro…
    Beijos saltitantes

  3. Infância roubada sempre destrói meu coração , Fê.
    Talvez eu seja uma besta romântica , que sonha com oportunidades pelo menpos, parecidas para todos!

  4. helena

    É muito triste ver tudo isso de perto, é a realidade de quem mora em comunidade.aqui no sta.Marta não é diferente, meninas 13 anos com filho no colo e a cada ano deminui a idade prá essas meninas e menino serem páis. é muitas crianças sem uma estrutura familiar ; cresce todos largados,sem o amor verdadeiro da famlia.

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