O vendedor de receitas

Então você começa a engordar destrambelhadamente. Os joelhos começam a sofrer com o sobrepeso, você meio que ignora. As preocupações aumentam em escala maior que pode suportar sua ansiedade. Sua coluna te coloca de cama por dois dias, o repouso é inevitável. Vem as constatação VINTE QUILOS ACIMA DO SEU PESO NORMAL.

Não é mais uma questão de estética. Você precisa se cuidar.

O plano de saúde caríssimo que você vem pagando há anos (matéria para outro post, aguardem) não te oferece um único endocrinologista ao sábado, único dia que um sujeito que trabalha em horário comercial pode ter, alguém te indica um médico com preço acessível, você acredita e vai… É a tua esperança!

A recepcionista ao telefone decreta: Ordem de chegada, distribuição de senhas a partir das 7h. Tudo bem. É a tua esperança!

Chega sábado, você acorda cedo, cruza a Avenida Brasil, chega à porta do consultório às 6h45, pega sua senha número 24, recebe a drástica notícia que o médico vai atrasar umas duas horas… Mas é a tua esperança! Senta e espera, espera, espera. Almoça e espera, espera, espera. Bebe uma água, faz um xixi, espera, espera, espera a sua vez, que quase ao anoitecer chega.

O médico te faz algumas perguntas, olha sem muita cautela os exames que você levou por conta própria e começa a sacar receitas JÁ PRONTAS dos montinhos e dispara, sem respirar as orientações:

– Esse é pra ansiedade, esse ajuda queimar, esse corta um pouco o apetite, a fórmula vai te ajudar a secar, nada de açúcar, refrigerantes. Bebidas alcoólicas ou sexo sem camisinha, nem pensar!
– Como assim, doutor?
– Os medicamentos aumentam a ovulação, portanto, não é indicado sexo sem preservativo, mesmo que o parceiro seja fixo.
Pausa
– Alguma dúvida?
– Não (como ele sabe que minha dúvida era sexual e não álcool?).
– Te vejo em dois meses. E isso também faz parte do tratamento, nada de parar com tudo e sumir porque isso… Também engorda.

Bem, o caso é que as receitas somavam a quantia de R$498,00. Não tinha dinheiro pra comprar. Tentei fazer orçamentos em outras farmácias. O caso é que a tal fórmula estava rabiscada, era ilegível, ninguém conseguia traduzir. Estava, assim, irremediavelmente presa ao vendedor de receitas. Era a minha única esperança!

Fazer o que? Terminei de pagar algumas prestações que tinha no cartão, para poder fazer um sacrifício de me tratar, confiava que as receitas, tal qual exames clínicos normais, tivessem duração de, pelo menos, 3 meses. Certo? Errado.

Dois meses depois, junto o dinheirinho pra voltar ao consultório e comprar os remédios.

– Alô. Estou ligando para saber se já terminou o recesso de natal
– O doutor só volta no dia 14, senhora
– É que só preciso comprar os remédios…
– Se a receita tiver menos de um mês, é só vir.
– Como?
– Tem mais de um mês sua receita? Então precisa passar pelo doutor (leia-se via crúcis de uma infindável espera, fora que isso é pago, claro) de novo. Não vou poder encomendar o remédio.

Primeira esperança frustrada do ano… E nem vou falar nada. Estou muito chateada para receber pedradas dos sumo otimistas.

2 Comentários

Arquivado em Hospitais Públicos

2 Respostas para “O vendedor de receitas

  1. aH EU NÃO VOU TACAR PEDRA NÃO…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s