Mogli Urbano

Então, esta semana, íamos muito bem em nossa rotina, quando entra no hospital uma moça gordinha, trazendo uma mochila nas costas, procurando pela obstetrícia. Informa-se com a recepcionista, dizendo que o caso é urgente, porque ela tinha passado por um parto em casa e precisava saber o que fazer dali a diante.

Repetiu a médica o caso:

– Me senti mal em casa, não tinha ninguém. Eu corri para o vaso, onde tive o bebê.
– Sim. Mas cadê o bebê?! – Disse a médica já com medo da resposta.

Neste momento, ela entrega a mochila. O bebê estava dentro, amarrado ainda em duas sacolas plásticas. Morto. Era óbvio.

A equipe toda foi tomada de um horror. Como é que uma mãe amarra seu filho dentro de um saco?! Que tipo de ser humano é esse?!

Quando a polícia chega entende-se o caso:

A mãe em questão tem apenas 16 anos. Namorava um rapaz de 18 que depois de saber da gravidez foi embora. Ela, com grau de escolaridade zero (sim, jamais foi à escola na vida), tinha uma mãe alcoólatra e o pai desconhecido. De tanto sofrer, foi morar com o irmão mais velho que a mantinha em casa, quando saia para trabalhar; Se a soubesse grávida, já tinha o aviso de que não sustentaria outra boca e, com medo, ela escondeu a gestação.

Sem nenhuma instrução e sozinha em casa, teve o filho com o instinto. O caso é que a primeira ação do bebê é o suspiro que lhe abre os pulmões e, com isso, aspirou a água do sanitário. Afogando-se, portanto.

Ela não tinha nem desespero, porque sequer sabia o mal feito. Como teria amor por aquela criança se jamais lhe ensinaram a amar? Ela só conhece a dor do abandono. O filho, na cabeça dela, foi só mais um que a deixou.

É quando eu pergunto: Que país é esse, que numa metrópole como o Rio de Janeiro, em pleno século XXI, ainda existe uma pessoa com grau de escolaridade zero e tão abandonada por questões básicas?

Eu sei, eu sei. Tem gente que passa pelo mesmo, ou até coisa pior, e não teria coragem de tal ato, mas cada ser humano é único. Continuo não aceitando, mas não tomo como monstruosidade o caso, ao contrário, senti dó daquela mãe tão sem amor, tão sem orientação, tão sem princípios básicos de certo e errado…Como um menino lobo na selva de pedra.

2 Comentários

Arquivado em Hospitais Públicos

2 Respostas para “Mogli Urbano

  1. Na boa, não sei se compartilho ou se choro.

  2. Cleto Guedes

    Esse é o retrato da “Ameríndia” que ainda é o Brasil. A India que temos aqui, e que podemos ver em cada esquina de cada capital, contrasta com os carros novos e os enormes shoppings que se erguem soberanos todos os meses nas mesmas cidades….
    É é uma India que, parece, ninguém quer ver….nem quem devia.

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