Catedrática

Se dois anos de Saúde foram árduos, também me deram a experiência de gerenciar conflitos de uma maneira, digamos, “vaselina”. Vejam vocês, que após esperar algumas semanas pelo dia de realizar uns exames de rotina, chego a clínica e o médico está mal humoradíssimo. Uma das pacientes já havia se queixado que o médico estava sendo ríspido e, fiquei muito brava, quando de pé em frente à porta, apenas porque o bebedouro estava ali (e não porque quisesse assuntar o que acontecia lá dentro) ele bateu a porta na minha cara, de um jeito que fez trepidar as paredes.

Eu não gostei nada. Já fiquei tensa dali mesmo. Pronta pra morder ele na primeira oportunidade.

Quando fui chamada, a assistente dele, me mandou tirar a roupa, me cobrir com o lençol e aguardar. Enquanto isso ele esbravejava que ia pegar a mochila dele e ia embora, que não tinha necessidade de aturar aquilo (que não consegui definir o que era)… Um desabafo daqueles!!!

Ele entrou na saleta empurrando a porta, quase despencando a divisória. Chutou a escadinha da maca, empurrou a cadeira pra sentar. Sem olhar pra minha cara:

– Quantos anos você tem?
– 34.
– Filhos?
– Um. 13 anos.
– Amamentou?
– Sim.
– Data da última menstruação?
– Tal.
– Pode deitar…
– Desculpa, mas eu posso dar uma palavra com o senhor antes?

Ele ficou olhando pra minha cara, meio impaciente

– Eu sei que os profissionais de saúde não são valorizados. Pelo que pude entender ai, de tudo o que senhor reclamou, é  justa sua insatisfação. Acontece que eu sou cidadã, e como tal, pago meus impostos, mas não recebo do SUS aquilo que acho que mereço. Então, eu pago um plano de saúde, com um sacrifício danado, e de novo não acho que recebo o que mereço. Se as fichas demoram 40 minutos para chegar até o senhor, eu já estou lá fora esperando por um atraso de 1h20min. Sem contar que demorou semanas para me marcarem um examezinho de rotina como esse. Quando chego aqui, tenho que ficar nua, na frente de um desconhecido, com uma sonda desconfortável que será introduzida por um profissional estressado. Imagina o senhor aqui fazendo uma transretal? Não ia se sentir desrespeitado? Envergonhado? E humilhado por essa situação?! Eu tenho certeza que o senhor não fez medicina pra isso. Havia um sonho ai dentro. O que eu espero é que você me entregue o seu sonho e leve sua insatisfação para a Direção dessa casa. Porque eu não tenho culpa, não vou resolver seu problema… Aqui não é o lugar indicado para isso, doutor.
Pausa.
– Você se incomoda que eu vá ao banheiro e beba uma água?
– Não. Fique a vontade.

Ele foi e quando voltou sorriu. E ao chamar o próximo no corredor usou um tom mais ameno. É que agora ele está ali entregando sonhos…

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1 comentário

Arquivado em Cotidiano

Uma resposta para “Catedrática

  1. Fernaaadaaaaa, vc fez issooo?
    Que do caraaalho mulher!

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