Arquivo da tag: educação

O poder do argumento

– Mãe, por que a vida é assim? Amanhã tudo de novo. Acordar, sair da minha cama quentinha e encarar o vento frio na cara, a chuva fina na cabeça, ouvir aquelas aulas intermináveis que eu tenho a certeza que serão inúteis no resto da minha vida… Eu queria um feriado que chegasse amanhã e durasse até o dia 25 de dezembro, quando então, a gente teria pausa para o ano novo.

– A vida não é assim, Gustavo. A vida é pior. Amanhã, talvez, você acorde cedo, passe por isso tudo e tenha que pagar escola pra um menino resmungão se rebelar contra o sistema.

– Ou talvez, não. Talvez amanhã você descubra que seu menino é um gênio que mudou o mundo e revolucionou esse jeito patético de ver as coisas. Talvez você se arrependa de não ter me deixado fazer feriado para ter ideias brilhantes de verdade, mas este momento já terá passado.

(pausa para ficarmos nos olhando fixamente, como quem confronta)

– E ai, feriado amanhã?!

E ai, tão olhando o que?

E ai, tão olhando o que?

Sim. Ele vai amanhã. Mas esse argumento será imortalizado pelo poder deste texto. Morro de orgulho dessa criança e, as vezes, até penso se ele não é superdotado e eu realmente ando desperdiçando tanto talento… Talvez eu me arrependa, mas estou sufocada pelo sistema, sem ter tempo de conduzir para além dessas asas que ele encontrou naturalmente para voar.

3 Comentários

Arquivado em Cotidiano

Apagão

O menino lobo não toma banho, quando toma, não passa o desodorante. O menino lobo não faz a barba, não depila o púbis, não tira os pelos das axilas e, se não faz isso e não passa desodorante no calor dos trópicos… Preciso descrever? Menino lobo, descendente de paraibano, não corta ou lava o cabelo (afinal de contas, mal toma banho).  Escovar os dentes, menino lobo, quando o faz é uma vez só ao dia.

fedo

Para civilizar o menino lobo, oferecemos recompensa positiva. Ensinamos uma, duas, três vezes a necessidade da boa higiene… Escolha o sabor da pasta, o perfume do shampoo, do desodorante… Olha que bonito o barbeador elétrico que ganhou!

Não. Nada é incentivo.

Aumento de mesada, vai? Você me mostra que é capaz de viver na sociedade, com respeito por nossas narinas e lhe damos papel moeda realizador de sonhos.

Não. Também não é incentivo.

Esta noite menino lobo foi ao cinema. Na sala ampla, com ar condicionado, o odor impregnou o ambiente, mas vamos considerar que é qualquer coisa na sala. Entramos no carro e… UAU! A sensação foi de ardência.

– Sinto muito! Não dá para ir a restaurante japonês, tudo fechado, com você neste estado. Vamos voltar pra casa:  cortar os pelos do braço, banho com sabonete bactericida e muito desodorante.
– Ah, não vou mesmo! Depois que entrar em casa não saio mais.
–  Qual é, cara? Você vai acabar com o sábado da gente?
– Não vou é em casa tomar banho.

Se menino lobo desconhece as regras básicas de convívio em sociedade, não pode também saber/querer/entender de computador. Nada de computador até que aprenda a se comportar como gente civilizada que, além de acessar a internet, também cuida da higiene e se importa minimamente com as narinas alheias. Ah, sim, e principalmente que não enfrente a mãe na frente dos outros. Tudo é muito engraçadinho, mas respeito é bom e eu (e minhas narinas) exigimos.

Talvez ele aprenda com reforço negativo, já que com o positivo foram todos tiros n’água.

2 Comentários

Arquivado em Cotidiano

Grito de Carnaval

Os brasileiros já estão se jogando com tudo no carnaval. Eu, ao contrário, como tenho um adolescente onde simplesmente nasceu sem o gen da animação, comecei meu feriado indo ali, ao shopping. Mais morno impossível, porém, como o objetivo era tirar o Gustavo da toca e, de certa forma, começar a comemorar o seu aniversário, batemos perninha pelos corredores vazios – esse foi o lado bom -, compramos roupas – porque como de costume, quando se aproxima o aniversário dele todo o armário encolhe como por encanto- , vimos a exposição de dinossauros, com direito a muitas fotos que ele também detesta e claro, lanchinho ao final da aventura.

20130208_203922

E é sempre neste momento a pausa para reflexão:

– Está feliz, filho?!
– Estou agradecido, feliz eu vou ficar quando ganhar meu jogo.

Ah, ta! A insatisfação da adolescência. A sinceridade incorrigível dos “Freitas”

Se bem que… Eu também preferia ganhar brinquedos. Todo resto é sobrevivência. Parte do pacote.  =)

1 comentário

Arquivado em Cotidiano

Chantagem (nada) Emocional

– Como assim você está saindo?
– Ué. Eu falei que ia sair…
– Mas quando você falou, eu neguei. Como assim? Minha opinião não vale mais de nada nessa casa? Cadê a democracia, gente?
– Ok. Gustavo. Quanto você quer?
– R$ 17,00 o Alvará.

1 comentário

Arquivado em Cotidiano

É de Maracujá

Uma da manhã. Filhote com o computador ainda ligado, no auge de um jogo qualquer. Eu começo a reclamar:

– Gustavo, está na hora de terminar com esse cassino!
– Preciso de um suco de maracujá, daqueles fortes… Tô sem sono!
– Maracujá? É essa tela de computador que dá insônia. Você fica o dia todo em cima disso… Vai jogar bola no campo, bater um pique com teus colegas, furar uns dedos no cerol que num instante você vai achar o sono.

Silêncio. Ele nada responde. Quando chego à porta do quarto, ouço o resmungo:

– Prefiro Maracujá!

Silêncio. Eu nada Respondo. Meu íntimo grita: “Onde foi que eu errei?!”

1 comentário

Arquivado em Cotidiano

Mogli Urbano

Então, esta semana, íamos muito bem em nossa rotina, quando entra no hospital uma moça gordinha, trazendo uma mochila nas costas, procurando pela obstetrícia. Informa-se com a recepcionista, dizendo que o caso é urgente, porque ela tinha passado por um parto em casa e precisava saber o que fazer dali a diante.

Repetiu a médica o caso:

– Me senti mal em casa, não tinha ninguém. Eu corri para o vaso, onde tive o bebê.
– Sim. Mas cadê o bebê?! – Disse a médica já com medo da resposta.

Neste momento, ela entrega a mochila. O bebê estava dentro, amarrado ainda em duas sacolas plásticas. Morto. Era óbvio.

A equipe toda foi tomada de um horror. Como é que uma mãe amarra seu filho dentro de um saco?! Que tipo de ser humano é esse?!

Quando a polícia chega entende-se o caso:

A mãe em questão tem apenas 16 anos. Namorava um rapaz de 18 que depois de saber da gravidez foi embora. Ela, com grau de escolaridade zero (sim, jamais foi à escola na vida), tinha uma mãe alcoólatra e o pai desconhecido. De tanto sofrer, foi morar com o irmão mais velho que a mantinha em casa, quando saia para trabalhar; Se a soubesse grávida, já tinha o aviso de que não sustentaria outra boca e, com medo, ela escondeu a gestação.

Sem nenhuma instrução e sozinha em casa, teve o filho com o instinto. O caso é que a primeira ação do bebê é o suspiro que lhe abre os pulmões e, com isso, aspirou a água do sanitário. Afogando-se, portanto.

Ela não tinha nem desespero, porque sequer sabia o mal feito. Como teria amor por aquela criança se jamais lhe ensinaram a amar? Ela só conhece a dor do abandono. O filho, na cabeça dela, foi só mais um que a deixou.

É quando eu pergunto: Que país é esse, que numa metrópole como o Rio de Janeiro, em pleno século XXI, ainda existe uma pessoa com grau de escolaridade zero e tão abandonada por questões básicas?

Eu sei, eu sei. Tem gente que passa pelo mesmo, ou até coisa pior, e não teria coragem de tal ato, mas cada ser humano é único. Continuo não aceitando, mas não tomo como monstruosidade o caso, ao contrário, senti dó daquela mãe tão sem amor, tão sem orientação, tão sem princípios básicos de certo e errado…Como um menino lobo na selva de pedra.

2 Comentários

Arquivado em Hospitais Públicos

Sábado

Alegria acordar e saber-se num sábado de manhã.

Há sol lá fora… A vida está cheia de oportunidades…

E a gente pode perder todas elas, simplesmente, optando por ficar vendo desenho animado, enrolado com seu filho na cama.

E não seria isso uma grande oportunidade?!

Eu acho!

1 comentário

Arquivado em Cotidiano