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Ninguém vê o irmão

Então uma das coordenadoras do local onde trabalho fica de frente com uma suspeita de câncer. Internação, falta de respostas, morosidade… É. Eu já vi esse filme (não gosto nada do final), com a diferença que estamos dentro de uma instituição de saúde e, portanto, com a faca e o queijo na mão para nadar contra esta maré, certo? Errado!

No lugar onde deveríamos encontrar pessoas mais humanas, afinal de contas, não há problema mais sério na vida de um ser humano do que a falta de sua saúde é justamente onde se colocam mais entraves (pelo menos aqui no Brasil): Corre para um lado, porta fechada. Vai para outro, janela emperrada. Pula o muro, dá de cara com um cachorro. E o tempo vai passando.

Não é Murphy, não. É má vontade sistêmica. As pessoas olham para você, mas não te veem (acho incrível que no filme Avatar, “eu te amo”, em Pandora seja “eu vejo você” porque muitas vezes a atitude de ver e não de olhar é que faz toda diferença). Fica aquele gosto de abandono. Imagine o que é para uma pessoa que serve em um hospital, lidando com as mazelas da vida todos os dias, sem receber o justo por isso, sem perspectivas (porque o Brasil também é muito isso), mas ainda assim entregando o melhor da sua mão de obra, de repente se sentir com dor e sozinho?!

Enquanto Ouvidora, que trata diariamente de resgatar pessoas desconhecidas do desvio de conduta dos meus colegas, não podia deixar uma amiga para trás. Movi sim, céus e terra para obter respostas satisfatórias. Pedi em seu nome as chaves das portas, escadas para os obstáculos mais altos e, ainda sabendo que meu trabalho é só uma gota no oceano, fiz questão que ao menos isto não lhe faltasse. E degrau a degrau, subimos. Tomografia pronta, biopsia agendada, consulta oncológica marcada, processos coordenados em nome da cidadania e dignidade que tentam nos roubar todos os dias.

rosa

Não quero com isso qualquer homenagem. Tampouco escrevo isso para me vangloriar. Não! Eu fiz porque ainda tenho capacidade de ver as pessoas, apesar de tudo o que já me aprontaram e pela dor de perder meu pai para o sistema.

Naquela época eu não tinha nem faca, nem queijo. A dor era só minha, e ele só mais uma estatística. Mas agora, do outro lado da cortina deste espetáculo eu pude fazer minha pequena participação e doei. Doei como filha, não como amiga ou companheira de trabalho. Doei aquele sonho que tinha de ver alguém me ajudando neste momento tão difícil. Doei a necessidade que eu tinha de alguém pegando na minha mão, garantindo que o pior não ia acontecer, por mais risco que a situação oferecesse.

No fim sou eu quem deve agradecer a oportunidade. Hoje eu tenho a certeza de que estando do outro lado, se eu pudesse fazer qualquer coisa, eu faria. E, ao menos desta vez, ao invés de revoltada, estou muito grata por segurar na mão de alguém.  É apenas uma gota, mas é o frescor que mais me orgulha. Ao menos esta batalha está vencida. Caminhemos…

 

Rosa

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O adeus a José de Alencar

A notícia está fresca na cabeça do povo:  No dia 29 de março, morreu  em São Paulo, aos 79 anos, o ex-vice-presidente da República José Alencar. O Mineiro de Muriaé, além de ter uma vida pública, era empresário do setor têxtil e a mídia está criando a maior comoção porque Alencar lutava contra o câncer desde a década de 90.

Motivo de referencial para resistência? É. José Alencar teve muita vontade de viver, sim. Mas milhares de pacientes com câncer também têm. A diferença? Você$ $abem bem qual é, como bem postou em seu Twitter minha amiga e jornalista Patricia Haddad.

Se me restringisse a falar em dinheiro, já estaria de bom tamanho – afinal de contas, se o vil metal não traz felicidade ou saúde ao menos conquista um certo grau de qualidade de sobrevida que é o desejo de 11 entre 10 pacientes com metástase do câncer -, mas não pára por ai. José Alencar era um homem público, influente. Cuidar dele traz visibilidade. Se empenhar em mantê-lo vivo apesar de todos os agravantes do quadro é importante não só para o profissional – o cardiologista dele apareceu no Fantástico, mera coincidência?! -, como para a instituição. Quantas vezes mesmo o Hospital Sirio Libanês foi citado na imprensa essa semana?! Genuína e bem vinda mídia espontânea!

Entretanto, o que mais me assusta não essa falta de senso crítico-financeiro que vejo faltar nas pessoas. É a criação de um novo ídolo da resistência, que esteve envolvido em várias maracutaias do governo Lula e outras que minha memória não alcança. A Globo “canoniza”, o povo esquece e acende vela.

No meu espaço, a minha homenagem aos reais pacientes sofredores e abandonados do Sus. Os Heróis da Resistência do Inca. E a minha saudade ao meu pai. Maltratado e morto pelo sistema: Uma imagem fala mais que mil palavras

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Resto de Cidade. Pra qualquer coisa de nação

O último final de semana foi prolongado. Feriado de Finados. Diziam os comunicados à imprensa que as repartições públicas fariam ponto facultativo, mas que claro, serviços de emergência como hospitais, manteriam normalmente seus plantões. Eu, como boa cidadã tola e crédula… Mais uma vez me senti segura e cai nos contos do vigário.

No sábado à noite, fui socorrer uma pessoa com histórico de câncer, que há dias passava por uma dor intensa, justamente no local onde havia sido operada uns dois anos antes. Carteirinha de paciente do INCA em mãos, lá fomos nós para Vila Isabel.

Quando chegamos lá, o médico plantonista estava em seu posto. Mas ouviu a queixa da paciente sacudindo negativamente a cabeça:

“A única coisa que posso fazer é aplicar um remédio para dor. Se a consulta tivesse sido pela manhã até dava para fazer um raio x, mas agora não tem nada mais funcionando. Ambulatório agora, só marcado na quarta-feira (o que viria a ser depois do feriado)”.

Pausa aqui: somente o raio x funcionando?

E se o caso não fosse no osso? E se fosse e precisasse de uma avaliação mais série? Até que passassem 4 dias para MARCAR (e não consultar) o paciente do câncer morre sem assistência.

Eu não estava na emergência de um hospital qualquer. Eu estava em um centro de tratamento especializado na doença e que, portanto, sabem da gravidade (e da urgência) do câncer seja em que parte for do corpo. Aliás, se a dor já estava muito forte, há muitos dias, não preciso ter diploma de Medicina para saber da gravidade do assunto. Sem contar que o paciente já estava cadastrado no sistema, passado por “n” tratamentos e cirurgias… Histórico forte para ser desprezado apenas porque era feriado.

 

E o povo ainda se dá por satisfeito com as UPAs, que de igual forma não funcionam. Ao invés de investirem na construção de mais um sistema falido, porque não ajeitam o que já temos e não funciona?

É inaceitável aplicarem morfina para mascarar a dor, porque é feriado e não tem um diagnóstico preciso.

Querem mais?

Domingo fui levar meu filho ao Planetário da Gávea. Um centro de entretenimento que, portanto, deveria funcionar nos finais de semana e feriados. Mas demos com o nariz na porta!

Detalhe: o feriado do funcionário público havia sido transferido para a segunda-feira, logo, no domingo quando estávamos disponíveis para visitar o espaço de lazer, ele deveria estar aberto. Sem desculpas. Mas não foi o que aconteceu. Não é incrível?!

Sei que já perguntei isso aqui outras vezes, mas vamos lá de novo: Onde é que nós vamos parar neste país?

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Mais uma do Câncer

Sete meses após o falecimento do meu pai, nos chega a notícia de mais um caso na família: agora é meu tio (irmão do meu pai) que está com câncer de garganta. Fator genético? Talvez. Entretanto, ambos eram fumantes inveterados e por muito tempo, somaram o fumo à cervejinha, claro.

Recentemente no Fantástico, foi ao ar uma matéria, onde o Inca (Instituto Nacional do Câncer) alertava que os homens têm 77% mais chances de desenvolver esta doença e, que a probabilidade desses pacientes virem a morrer, é ainda 85% superior que nas mulheres.

Esses dados não têm nada a ver com a biologia do sexo masculino, mas com o fato dos homens se exporem muito mais aos fatores de risco: cigarro, excesso de álcool, alimentação inadequada, obesidade, vida sedentária e medo do médico, fazem parte do cardápio masculino. E é aí que mora o perigo.  

No ano passado, quem passou por aqui lembra, o sofrimento de encarar o setor de cabeça e pescoço do Inca, na Praça da Cruz Vermelha, Centro do Rio. Pessoas mutiladas por uma doença silenciosa, inclusive o meu pai, simplesmente porque como verdadeiros homens bombas alimentaram seu corpo com a pólvora, cigarro mais bebida alcoólica.

Vamos lutar com ardor por aqueles que conhecemos e não experimentaram ainda o sofrimento desse diagnóstico. Porque o mal que o cigarro faz, quem fuma, nem desconfia.

Aperte o play (depois envie a idéia).

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Imagens falam mais que mil palavras

O Governador Sérgio Cabral, no início do seu mandato, em um ato inédito e porque não dizer comovente, visitou cada um dos hospitais estaduais e tomou ciência de que medidas imediatas deveriam ser geridas. Mas as providências, não chegaram. E a saúde do estadual tem vivido um colapso.

Sim. Já manifestei aqui minha indignação com os servidores públicos. Porque na minha opinião, não é só o Governo que tem que fazer o país andar é a nossa consciência individual; mas no imaginário coletivo, parece que isso não acontece e funcionário concursado não trabalha e o povo ainda agradece.

No entanto, quando a estatística passa a ser um ente querido a ferida aberta arde e maltrata. Meu pai, 65 anos, operou em 2004 um câncer no Hospital Central da Polícia Militar (HCPM), no Estácio/RJ. O médico na época informou que o nódulo recente havia sido retirado integralmente, porém, que ficasse atento a qualquer alteração, porque a doença é silenciosa. Percebendo uma alteração no pescoço, em janeiro deste ano, ele retornou ao hospital. Teve início a sua via-crúcis.

Exames marcados para até 30 dias à frente, resultados, mais demorados ainda. E a lesão, aumentando. Prescrito uma tomografia, o aparelho quebrou e sem data para o conserto, ficaram de entrar em contato quando o serviço fosse restabelecido. Passados 40 dias o exame foi realizado, porém, novamente uma data mais distante para o laudo foi dada, já que todos os exames estavam atrasados com a quebra do equipamento. Os meses foram passando…
             No dia 04 de setembro, quinta-feira, ele foi internado, no HCPM. Festa para a família? Não. A correria nem tinha começado. A lesão foi dada como uma metástase e, no dia seguinte a internação, a equipe do Major Gerson, o liberou com um encaminhamento para a triagem do INCA, na Praça da Cruz Vermelha. Em outras palavras, depois da demora, lavaram as mãos.

A triagem do Inca nos enviou ao departamento de cabeça e pescoço na rua Washington Luís, Centro do Rio. No local, o médico informou que ele seria recebido se fizesse uma biópsia, porque o procedimento não é realizado pelo Inca:

          Volto eu ao HCPM, para solicitar o encaminhamento para a biópsia, afinal, o major que é médico, devia ter esses caminhos mais claros do que eu.

– Sinto muito o Major chegou tarde e saiu cedo.

– Como assim? Ele vai embora e ninguém da equipe pode?

– Não! Volta na terça, senhora…

 

A terça era ainda a outra semana. Alguém explica como é que pode isso?! Porque eu não tenho palavras.

No dia seguinte, minha mãe  (tão ou mais revoltada que eu) vai ao Hospital de Cascadura (também da PM), onde chorou (literalmente) para o comandante, para que ele conseguisse um encaminhamento para o Hospital dos Servidores do Estado. No Hospital dos Servidores, outra resposta negativa:

 

– Sinto muito, agendamentos de Biópsia somente daqui a 40 dias

 

Todos eles sentem muito, mas ninguém faz nada. Bom, o governador gosta de estar presente em funerais. Solidário nos funerais que só… Não paga médicos e são vagabundos, não muda a estutura dos hospitais que visitou, mas constrói mais UPAs, para fazer curativo. Talvez ele, muito trabalhador, se sensibilize e pague as flores que vão enfeitar o caixão de mais um PM morto pelo sistema que ele ajuda a emperrar.

          Conseguimos, então, através de conhecimentos em Macaé, que meu pai fizesse a biópsia no Hospital Público Municipal, único lugar aliás, onde ele foi tratado com dignidade.

           Nem falo o que foi essa viagem. Meu pai já muito debilitado, ficou roxo com desoxigenação na cérebro, enrolou a língua, paramos várias vezes para os primeiros socorros. O trajeto que levaria 3h, durou mais de 4 longas horas… Mas o procedimento cirúrgico foi feito e, voltamos ao Inca, da Praça da Cruz Vermelha.

           Já cientes da gravidade do problema, os médicos pediram ainda uma segunda bateria de exames (os mesmos “recentes” feitos no HCPM) e fizeram questão que fosse levado a lãmina onde havia sido feito o exame. Como nenhum médico havia dito que isso seria necessário, teve que ser agendado com o laboratório uma data para a entrega e uma nova viagem a Macaé para buscá-la, mas claro, estamos nadando em dinheiro, nem sei porque não pago o tratamento particular do meu pai.

           Com a lâmina em mãos ainda não chegava a solução, ainda marcaram dentista, que por sua vez marcaram uma mesa redonda para ver o que farão pelos dentes do meu pai, enquanto o tumor o devora em vida.

            Bom, a conclusão disso tudo? As imagens são fortes, mas minha revolta me dá o direito de mostrar. Como diria Kafka: “Como cães!!!!” 

 

            

 

      

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