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Melancolia de Sexta

Quando eu era mais jovenzinha gostava da sexta-feira. Saía da escola às 17h50. Geralmente o namoradinho já estava esperando na esquina. Era o único dia da semana, que já era final de semana, que meus pais me autorizavam a namorar. Eu que nunca enxerguei bem, desde nascença, já o podia sentir ao longe, mesmo antes do vulto de sua silhueta se completar em corpo de verdade. Era como enxergar com o coração.

Mas não era esse o único amor da juventude.

Havia ainda o jogo da verdade, Adedanha ou War que rolava até tarde na casa do meu grande amigo que morava em frente (já não mora nem é amigo). Eram as combinações da matinê de domingo. Sim, naquele tempo “fedelho” não curtia night, não. Era Matinê. Que começava cedo com hora de terminar antes da meia noite. No meu caso, filha caçula de mãe crente e pai policial, a tal combinação assumia ares de Missão Impossível: como convencer meus pais a me deixarem ir era sempre o que demandava mais tempo. Aliás, como eu nunca tive vocação pra santa, também combinávamos, no caso deles não deixarem por vias sinceras, que mentirinha pregar para poder me esbaldar. =P

Com a sainha de pregas da Escola Municipal os fins de semana não prometiam. Eles cumpriam. Eles eram. Não tinha solidão, não tinha depressão.

Mesmo quando estava de castigo (pensam o que? As mentirinhas da matinê anterior, as vezes eram descobertas, sim), o meu amigo da casa da frente, fazia códigos morse na lâmpada da frente, para “bater papo” ou se solidarizar. Tínhamos uma cartilha de codificação, xerocada do rádio amador do meu pai.  Google, pra que?!

Outras vezes, colocavam o som alto, com uma música que eu gostava e, da minha janela do quarto, dançávamos no mesmo hit. Ao lado da minha casa, o terreno baldio ainda não era murado… Os meninos desbravavam a montanha de lixo para jogar Adedanha sem papel.

Naquele tempo eu tocava piano, fazia cena em teatros mambembe e de da escola, ensaiava os primeiros passos de dança de salão com o pai de uma amiga que nos levava aos bailes da terceira idade e até isso era motivo de festa. Tantos eventos, tantas festas de debutantes, tantas possibilidades. E era na Sexta-feira, que  nos entregavam o mundo pela frente… Ainda havia mais dois dias inteirinhos para ser exclusivamente feliz.

Hoje… Viva a internet! Dão a impressão de que os amigos não se foram… Mas sexta-feira agora é melancolia apenas. É uma depressão pior do que a musiquinha do início do Fantástico no domingo. É saber que serão 2 dias onde vou ver o mundo sozinha, apenas de uma janela. De um Windows. E poderia ser pior… No tempo da minha mãe nem isso havia. Talvez a solidão não fosse ser tão ausente! Será que os únicos culpados somos nós?! Sou eu.

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O vendedor de receitas

Então você começa a engordar destrambelhadamente. Os joelhos começam a sofrer com o sobrepeso, você meio que ignora. As preocupações aumentam em escala maior que pode suportar sua ansiedade. Sua coluna te coloca de cama por dois dias, o repouso é inevitável. Vem as constatação VINTE QUILOS ACIMA DO SEU PESO NORMAL.

Não é mais uma questão de estética. Você precisa se cuidar.

O plano de saúde caríssimo que você vem pagando há anos (matéria para outro post, aguardem) não te oferece um único endocrinologista ao sábado, único dia que um sujeito que trabalha em horário comercial pode ter, alguém te indica um médico com preço acessível, você acredita e vai… É a tua esperança!

A recepcionista ao telefone decreta: Ordem de chegada, distribuição de senhas a partir das 7h. Tudo bem. É a tua esperança!

Chega sábado, você acorda cedo, cruza a Avenida Brasil, chega à porta do consultório às 6h45, pega sua senha número 24, recebe a drástica notícia que o médico vai atrasar umas duas horas… Mas é a tua esperança! Senta e espera, espera, espera. Almoça e espera, espera, espera. Bebe uma água, faz um xixi, espera, espera, espera a sua vez, que quase ao anoitecer chega.

O médico te faz algumas perguntas, olha sem muita cautela os exames que você levou por conta própria e começa a sacar receitas JÁ PRONTAS dos montinhos e dispara, sem respirar as orientações:

– Esse é pra ansiedade, esse ajuda queimar, esse corta um pouco o apetite, a fórmula vai te ajudar a secar, nada de açúcar, refrigerantes. Bebidas alcoólicas ou sexo sem camisinha, nem pensar!
– Como assim, doutor?
– Os medicamentos aumentam a ovulação, portanto, não é indicado sexo sem preservativo, mesmo que o parceiro seja fixo.
Pausa
– Alguma dúvida?
– Não (como ele sabe que minha dúvida era sexual e não álcool?).
– Te vejo em dois meses. E isso também faz parte do tratamento, nada de parar com tudo e sumir porque isso… Também engorda.

Bem, o caso é que as receitas somavam a quantia de R$498,00. Não tinha dinheiro pra comprar. Tentei fazer orçamentos em outras farmácias. O caso é que a tal fórmula estava rabiscada, era ilegível, ninguém conseguia traduzir. Estava, assim, irremediavelmente presa ao vendedor de receitas. Era a minha única esperança!

Fazer o que? Terminei de pagar algumas prestações que tinha no cartão, para poder fazer um sacrifício de me tratar, confiava que as receitas, tal qual exames clínicos normais, tivessem duração de, pelo menos, 3 meses. Certo? Errado.

Dois meses depois, junto o dinheirinho pra voltar ao consultório e comprar os remédios.

– Alô. Estou ligando para saber se já terminou o recesso de natal
– O doutor só volta no dia 14, senhora
– É que só preciso comprar os remédios…
– Se a receita tiver menos de um mês, é só vir.
– Como?
– Tem mais de um mês sua receita? Então precisa passar pelo doutor (leia-se via crúcis de uma infindável espera, fora que isso é pago, claro) de novo. Não vou poder encomendar o remédio.

Primeira esperança frustrada do ano… E nem vou falar nada. Estou muito chateada para receber pedradas dos sumo otimistas.

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