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Traição

Esses dias me perguntaram o que ando fazendo da vida. Eu pensei por alguns instantes, dei uma resposta en passant, mas lá no fundo eu suspirei e disse: “sendo traída”. E não estou falando de ser traída com o outro ou com outra. Quer dizer, não me refiro a amor, desamor, paixões. Falo mesmo das traições cotidianas. Esse tipo de traição pode ser terrível. Algumas vezes você trai porque o relacionamento desgastou, então se arrepende, mas não pode mais voltar atrás. A dor que se causou (ou sofreu) já não permite mais voltar atrás, e você olha, da janela, sem ter nem o direito de sacudir o lencinho branco, o outro partir.

Entretanto, apesar da dor se arrasta e a cicatriz que deixa lá a marca, a vida passa e em algum momento, o traído se recupera, a vida se transforma ou a gente faz de conta que tanto faz.

Triste mesmo é você pagar um plano de saúde, porque o SUS não te atende, confiar em um médico, que nem tinha o direito de ser chamado como doutor, e este te dar um diagnóstico errado ou não te prevenir quanto aos efeitos colaterais de um determinado medicamento e você se sentir pior. Ou até ver um problema maior nascer.

Triste é você se encantar com os benefícios oferecidos por uma data instituição financeira, de repente sofrer um revés e, quando tenta reparar as dívidas, é atendido por um profissional que não está nem ai para sanar o problema. Como se quem não tivesse milhões para investir fosse menor. Alguém disse pra eles que é o pobre que paga as contas?

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Tristeza profunda ver um ser humano cheio de arrogância, passar a sua frente e assumir um lugar que a vida nunca te deu direito, com a simplicidade de quem masca um chiclete. E o pior, usando daquele amigo que você tem em comum. Amigo? Melhor nem mencionar título, né? Que amigo é esse que colabora com um e ignora o outro. Talvez bom mesmo seja ser ruim. Ou então meus conceitos de bom e mau estão meio deturpados, o que não me faz sentir menos traída.

Pior ainda é a traição com uma população inteira! O Morro do Bumba reconstruído em cima do que já foi tragédia. A Região Serrana sempre com a corda no pescoço ao menor anúncio de chuva. A situação do bonde de Santa Teresa, depois de dois anos sem solução. O povo resolve ir para a rua lutar por dignidade, porque ninguém aguenta mais o Brasil como está e os baderneiros, que comprados ou não, deveriam estar dedicados a fazer um país diferente pra si, saqueiam, quebram, desorganizam. Vocês não se sentem traídos pelo próximo? Pelo sistema? Pelo destino? Será que ando traindo a mim mesma?

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Rio de Janeiro: lindo e desorganizado

Cada dia mais eu me sinto a beira de um ataque de nervos. De verdade. Não sei como é possível a gente conseguir viver em uma cidade como o Rio e sobreviver a ela por, sei lá, 80 anos… Se é que essa é uma média oficial de sobrevida por aqui.

Bastam três pingos de chuva e todo mundo já sabe: o trânsito passa de lento a insuportável. Quando não é um fenômeno natural, são as blitzes. Puro teatro pra fazer a gente ter a sensação de que alguém está fazendo algo para acabar com a insegurança geral. Não sinto nem diminuir.

Entro em pânico toda vez que preciso entrar em um caixa eletrônico. Aquela coisa de “digite sua senha, insira seu cartão, digite sua chave de segurança, retire seu cartão, insira seu cartão”, transfere o nosso tempo a favor do ladrão, na espera da “saidinha do banco”. Será que ninguém percebe? Esse sistema é falho, lento… Não dá segurança a ninguém.

E quando saio da cabine? Todo mundo passa a ser suspeito. Não que eu ande cheia do dinheiro, em geral, é R$10,00 o que trago no bolso, mas a minha hora trabalhada custa R$8,33 e isso, definitivamente, não paga minhas contas. De modo que R$10,00 é minha pequena fortuna diária para o pão de cada dia. Fará falta se alguém me tomar. Fora que a gente pode morrer por essa mesma infame quantia, porque a segurança mesmo é só naquela blitz aparente.

A situação da saúde também está dramática. Um rapaz de 21 anos cai de uma laje na Baixada Fluminense, percorre, inconsciente, 80 quilômetros durante 7 horas, numa romaria por cinco hospitais para ser internado e, acaba morrendo 7 dias depois. Digam o que quiserem através de notas oficiais (e eu, infelizmente, também escrevo as minhas quase que diariamente, fazer o que?), mas em quanto cidadã, nada me tira da cabeça que socorro tem que ser imediato, afinal de contas, não estamos lidando com humanoides, que podem trocar uma peça e tudo se resolve. Não! A vida humana é uma só e deveria ser valorizada.

E o sistema bancário? Pode todo mês ter que fazer uma denúncia ao Banco Central para que se faça o óbvio: não extorquirem o cliente. Mesmo não gastando nada com o cartão de crédito há meses, só porque tenho uma dívida negociada, não consigo fechar o orçamento do mês antes de brigar pelo menos 3 dias, para estornarem os valores a mais. Sempre tem uma “quebra do meu compromisso” junto a instituição, mesmo que isso signifique pagar adiantado. É. Isso mesmo. Paguei antes, perdi o acordo, porque tem que pagar no dia. A regra não era ter mais desconto, porque se teria, em tese, menos juros?!

A cantora Rihanna adorou o Rio, a praia e a caipirinha e fez até uma tatuagem de henna. Coisa linda de Deus! Tem dinheiro sobrando: Não vai experimentar o Metro da cidade, não vai precisar de um medicamento da Farmácia Popular, não há de cair de uma laje… Fácil dizer que o Rio de Janeiro continua lindo.

Estamos em outubro. Final do ano chegando. Você, que pode, já deve estar escolhendo roteiro do Revéillon. Já que brasileiro não sabe fazer um protesto, dê uma ajuda, não venha pra cá, não. Isso aqui é o caos. Não merece sua visita, antes que acabem com tanta pouca vergonha.

Cansei!

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Absurdo era deixar como estava

Enfim, estou começando a ver vultos de que o povo brasileiro vem começando a entender o que é Democracia e como se utilizar dela. Está rolando na Web um movimento de caráter apartidário, que atende por “MOVIMENTO ABSURDO“. Descobri esse “pequeno sinal de fumaça” via Facebook, mas acredito que há potencial para encorpar e atingir outras redes sociais.

O movimento começou entre moradores de Nova Friburgo, que depois das enchentes do início do ano, foram esquecidos pela opinião pública e enfrentam desvio de verba do governo federal que deveria estar sendo investida na reconstrução da cidade. A iniciativa já rendeu um bom fruto: influenciaram a composição de uma CPI na Câmara Municipal que vai apurar esse “Triângulo das Bermudas” que toma dos cidadãos a recuperação da sua dignidade.

O fenômeno ainda é local, mas penso que nós podemos nos unir nessa indignação. Hoje levantamos a bandeira da Região Serrana, amanhã pode ser por um objetivo mais amplo que abranja a cobrança de novas leis e mecanismos de controle externo da sociedade. Este é um processo democrático legítimo que pode ser firmado pela minha e pela sua voz. Afinal de contas, esse não é o primeiro desvio, tampouco o último dos absurdos cometido por nossos governantes.

É hora de trabalhar, meu povo! “Denunciar é participar”

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Corre que vem chuva

No país da Copa do Mundo 2014, tudo é muito bonito até que cai a chuva. No Rio de Janeiro, mais um episódio de caos pluvial se repetiu ontem (25/04): A Defesa Civil da cidade registrou pelo menos quatro pontos de deslizamento em favelas diferentes; Na serra Grajaú-Jacarepaguá, uma pedra se desprendeu das rochas, acabou com a frente de um carro e provocou a interdição completa da via; Na Praça da Bandeira, um homem foi encontrado morto, vítima de afogamento.

E ai, as notícias começam a ser publicadas e você, à medida que as lê, pode jurar por Deus e todos os santos que, dessa vez o povo vai cobrar das autoridades alguma providência. Peraí, gente! Tem quatro meses que a região serrana do estado veio abaixo por conta de chuva. Cidadãos que pagam seus impostos ainda estão em abrigos improvisados… E o Morro do Bumba? E Angra dos Reis? Vamos dizer que já chega?

Ao contrário… O povo ficou feliz porque pela primeira vez a prefeitura acionou um alarme para avisar de situações de emergência em área de risco. O sistema sonoro foi instalado depois das enchentes de abril do ano passado. Isso evita que as pessoas sejam soterradas. Quanta bondade, senhor prefeito!

Não fosse pelo fato das pessoas estarem ainda em ÁREAS DE RISCO.

Em UM ANO não se conseguiu dar a esses brasileiros um plano decente de habitação? Eles precisam sair correndo com alguns pertences e suas famílias debaixo de qualquer chuvinha? Viver no pavor é o que merece o povo que paga os impostos mais caros DO MUNDO?

O sistema de sirene foi inspirado em quem? No Japão? De fato, senão fosse o alarme de calamidade acionado momentos antes da Tsunami a tragédia teria sido muito maior (eu mesma escrevi sobre isso), mas ondas gigantes são eventos naturais isolados, já a chuva nesta época do ano é tão banal por aqui, que Águas de Março virou um clássico da MPB. Ou não?

Se é pra copiar coisas, vamos começar pelas mais úteis? Além de sirenes antecipando catástrofes, os japoneses têm um sistema de escoamento de águas pluviais por meio de reservatórios gigantescos, que não se mistura ao sistema de esgoto, e evita o transbordamento (motivo da maioria das nossas enchentes). As tubulações atravessam o subterrâneo de algumas cidades japonesas, drenando a água excedente e evacuando para algum rio quando necessário, para tanto, essas galerias tem motores capazes de bombear cerca de 200 toneladas de água por segundo para exterior. Detalhe: tudo isso embaixo de uma terra sujeita a terremotos e tsunamis coisas que não vemos por aqui.

As cidades crescem em cima de asfalto. Este material é impermeável, por tanto, há de se pensar alternativas para co-existir com a natureza que ainda tem seu lugar neste planeta.

Se não houve vítimas fatais nas comunidades por conta do alarme a que todos louvam, vamos lembrar que um homem morreu afogado porque nossas galerias pluviais são ineficientes e causam enchente!

Precisamos de um sistema de drenagem eficaz, de um plano de habitação seguro para que nossas famílias não estejam em áreas de risco normalmente e ai, sim, uma sirene contra CATÁSTROFES (e não rotinas naturais).

Só me venham falar de satisfação, quando acordarem desse sono profundo, brasileiros!

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Resto de Cidade. Pra qualquer coisa de nação

O último final de semana foi prolongado. Feriado de Finados. Diziam os comunicados à imprensa que as repartições públicas fariam ponto facultativo, mas que claro, serviços de emergência como hospitais, manteriam normalmente seus plantões. Eu, como boa cidadã tola e crédula… Mais uma vez me senti segura e cai nos contos do vigário.

No sábado à noite, fui socorrer uma pessoa com histórico de câncer, que há dias passava por uma dor intensa, justamente no local onde havia sido operada uns dois anos antes. Carteirinha de paciente do INCA em mãos, lá fomos nós para Vila Isabel.

Quando chegamos lá, o médico plantonista estava em seu posto. Mas ouviu a queixa da paciente sacudindo negativamente a cabeça:

“A única coisa que posso fazer é aplicar um remédio para dor. Se a consulta tivesse sido pela manhã até dava para fazer um raio x, mas agora não tem nada mais funcionando. Ambulatório agora, só marcado na quarta-feira (o que viria a ser depois do feriado)”.

Pausa aqui: somente o raio x funcionando?

E se o caso não fosse no osso? E se fosse e precisasse de uma avaliação mais série? Até que passassem 4 dias para MARCAR (e não consultar) o paciente do câncer morre sem assistência.

Eu não estava na emergência de um hospital qualquer. Eu estava em um centro de tratamento especializado na doença e que, portanto, sabem da gravidade (e da urgência) do câncer seja em que parte for do corpo. Aliás, se a dor já estava muito forte, há muitos dias, não preciso ter diploma de Medicina para saber da gravidade do assunto. Sem contar que o paciente já estava cadastrado no sistema, passado por “n” tratamentos e cirurgias… Histórico forte para ser desprezado apenas porque era feriado.

 

E o povo ainda se dá por satisfeito com as UPAs, que de igual forma não funcionam. Ao invés de investirem na construção de mais um sistema falido, porque não ajeitam o que já temos e não funciona?

É inaceitável aplicarem morfina para mascarar a dor, porque é feriado e não tem um diagnóstico preciso.

Querem mais?

Domingo fui levar meu filho ao Planetário da Gávea. Um centro de entretenimento que, portanto, deveria funcionar nos finais de semana e feriados. Mas demos com o nariz na porta!

Detalhe: o feriado do funcionário público havia sido transferido para a segunda-feira, logo, no domingo quando estávamos disponíveis para visitar o espaço de lazer, ele deveria estar aberto. Sem desculpas. Mas não foi o que aconteceu. Não é incrível?!

Sei que já perguntei isso aqui outras vezes, mas vamos lá de novo: Onde é que nós vamos parar neste país?

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Bilhete Único: Manobra de Campanha

Eu não agüento esses políticos desafiando a nossa inteligência (muito mais) em época de campanha. Durante o debate dos candidatos a governador na Band, o nosso querido Cabral estufou o peito pra dizer que o bilhete único criado (leia-se copiado, porque o Bilhete Único é muito eficiente, há muitos anos em São Paulo) por ele já havia sido usado em 1.200.000 viagens.

Ah, é? Tá. O sistema foi implantado (mal e porcamente) em fevereiro, ou seja, temos aí seis meses de viagem. 1.200.000, em seis meses, contando apenas os dias úteis, seriam 10 mil viagens. Se o cidadão vem de outro município, óbvio que vai retornar pra cidade de origem, com isso, seriam 5 mil pessoas por dia sendo beneficiadas.

Qualquer medida pública que melhore a vida de um cidadão que seja, é importante, mas não chega a ser motivo pra bater no peito. Ainda mais quando ele sabe que o sistema foi implantado cheio de falhas, que as empresas de transporte ainda não se definiram quanto a perfeita estruturação do bilhete e, a iniciativa privada ainda não atentaram para a mudança do “Vale transporte” dos funcionários pelo novo sistema. E afinal não era para ser economia para empregador e empregado?

A idéia foi boa, governador, mas é preciso bem mais que instalar. É preciso monitorar, fiscalizar, orientar… E isso… Ninguém viu até agora.

A assembleia legislativa poderia pedir a Fetranspor a abertura desses dados, por viagem e valores de subsídio recebido para conferir se uma parcela significativa de eleitores estão sendo beneficiados de fato. Porque falar em números brutos só para encantar quem não pára para fazer conta é muito fácil. O transporte urbano do Carioca é um lixo. E o Bilhete único não é realidade. Fiquem de Olho!

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Úmida retrospectiva de uma tragédia anunciada

No dia 27 de março, há 12 dias, portanto, foi noticiado que houve um evento no Espaço Criança Esperança onde os moradores da comunidade do Cantagalo (Ipanema) receberam a planta baixa de suas casas. Esclareça-se que a entrega desse documento é o primeiro passo para que seja concedido o título de propriedade das moradias.

Me corrijam se estou errada: os moradores de uma área de risco, que tem suas construções em terrenos instáveis brindam em evento solene a possibilidade legal de se manterem em zona de desmatamento (que leva a erosão e conseqüentemente ao desabamento).

Ai, vem a chuva. Mais uma tragédia acontece. E nossos governantes colocam suas caras deslavadas nos meios de comunicação criticam as obras irregulares e pedem que as famílias deixem as áreas de risco.

Será que é para abandonar também as casas que receberam planta e, portanto, aval dos governantes para estarem em lugares que não deveriam? Esse é o máximo de esforço que eles podem fazer pela população?

Francamente, na Zona Portuária do Rio tem inúmeros prédios abandonados. Poderia ter casas populares. Simplesmente obrigava-se a mudança dessas pessoas que construíram moradias em morros, para lugar seguro, reformado e digno. Tratava-se do reflorestamento dessas áreas e aí, sim, a gente ia começar a ter uma urbanização responsável.

Agora uma das mãos torna licito a habitação de áreas de risco e a outra berra que é irresponsável… Retirem suas famílias? Qual afinal é estratégia de habitação do governo?

E o pior de tudo é que agora o Governo Federal libera verba de 200 milhões de Reais ao Rio para minimizar o problema causado pelas chuvas. A pergunta é: Por que esse dinheiro não apareceu pra prevenção? Teríamos evitado mortos, feridos, desabrigados, desalojados…

Mas o importante mesmo é pensar que todo esse problema não afetará Copa e Olimpíadas, não é Lula?

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