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Vagabunda é a mãe!

– Alô! É do Hospital?
– É, sim, senhora. No que posso ajudar?
– É que meu médico me deu um papel para cirurgia bariátrica, e eu quero saber se vocês têm endocrinologista.
– Temos endocrinologista ambulatorial. Não realizamos cirurgia bariátrica. A senhora tem que se informar na Clínica da Família ou posto de saúde como pode agendar o atendimento em uma unidade que realize o procedimento. Será mais ágil encaminhá-la a uma unidade que já realize a cirurgia que a senhora precisa.
– Ele me deu papel, minha filha, e disse que qualquer lugar que tivesse endócrino ia receber…
– Ele lhe informou errado. A senhora deve pegar sua guia, levar até a Clínica da Família e se orientar. Peço desculpa em nome do SUS pelo engano. Em geral, os médicos não estão a par dos procedimentos para agendar. Deste modo que lhe informei é o correto e será rápido.
– Rápido? Voltar lá é rápido? Não to te entendendo, minha filha, se fosse a tua mãe… Você é uma vagabunda, de vagabundagem ai, sem querer trabalhar… Por isso que o povo está na rua quebrando tudo!
– É… Tem gente quebrando tudo porque não sabem agir com cordialidade, como a senhora agora. Estou gentilmente reparando um equívoco, passível a qualquer profissional e a senhora ofendendo quem não tem nada a ver com isso. Este não é um problema de saúde. É de educação. Boa tarde, pra senhora!

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Vontade mesmo foi concluir:
A vagabunda aqui sugere que a senhora enfie o papel do seu encaminhamento no rabo da sua avó, que deve ser mais amplo que o Túnel Rebouças.

Mas preferi acreditar que gentileza gera gentileza.

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Ninguém vê o irmão

Então uma das coordenadoras do local onde trabalho fica de frente com uma suspeita de câncer. Internação, falta de respostas, morosidade… É. Eu já vi esse filme (não gosto nada do final), com a diferença que estamos dentro de uma instituição de saúde e, portanto, com a faca e o queijo na mão para nadar contra esta maré, certo? Errado!

No lugar onde deveríamos encontrar pessoas mais humanas, afinal de contas, não há problema mais sério na vida de um ser humano do que a falta de sua saúde é justamente onde se colocam mais entraves (pelo menos aqui no Brasil): Corre para um lado, porta fechada. Vai para outro, janela emperrada. Pula o muro, dá de cara com um cachorro. E o tempo vai passando.

Não é Murphy, não. É má vontade sistêmica. As pessoas olham para você, mas não te veem (acho incrível que no filme Avatar, “eu te amo”, em Pandora seja “eu vejo você” porque muitas vezes a atitude de ver e não de olhar é que faz toda diferença). Fica aquele gosto de abandono. Imagine o que é para uma pessoa que serve em um hospital, lidando com as mazelas da vida todos os dias, sem receber o justo por isso, sem perspectivas (porque o Brasil também é muito isso), mas ainda assim entregando o melhor da sua mão de obra, de repente se sentir com dor e sozinho?!

Enquanto Ouvidora, que trata diariamente de resgatar pessoas desconhecidas do desvio de conduta dos meus colegas, não podia deixar uma amiga para trás. Movi sim, céus e terra para obter respostas satisfatórias. Pedi em seu nome as chaves das portas, escadas para os obstáculos mais altos e, ainda sabendo que meu trabalho é só uma gota no oceano, fiz questão que ao menos isto não lhe faltasse. E degrau a degrau, subimos. Tomografia pronta, biopsia agendada, consulta oncológica marcada, processos coordenados em nome da cidadania e dignidade que tentam nos roubar todos os dias.

rosa

Não quero com isso qualquer homenagem. Tampouco escrevo isso para me vangloriar. Não! Eu fiz porque ainda tenho capacidade de ver as pessoas, apesar de tudo o que já me aprontaram e pela dor de perder meu pai para o sistema.

Naquela época eu não tinha nem faca, nem queijo. A dor era só minha, e ele só mais uma estatística. Mas agora, do outro lado da cortina deste espetáculo eu pude fazer minha pequena participação e doei. Doei como filha, não como amiga ou companheira de trabalho. Doei aquele sonho que tinha de ver alguém me ajudando neste momento tão difícil. Doei a necessidade que eu tinha de alguém pegando na minha mão, garantindo que o pior não ia acontecer, por mais risco que a situação oferecesse.

No fim sou eu quem deve agradecer a oportunidade. Hoje eu tenho a certeza de que estando do outro lado, se eu pudesse fazer qualquer coisa, eu faria. E, ao menos desta vez, ao invés de revoltada, estou muito grata por segurar na mão de alguém.  É apenas uma gota, mas é o frescor que mais me orgulha. Ao menos esta batalha está vencida. Caminhemos…

 

Rosa

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Choro mais uma vítima social

IMG_0186Naquele dia, sabe-se Deus porque, o médico decidiu tirar o bebê de 11 meses, ainda com uma pneumonia avançada, do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e transferi-la para a enfermaria. Alta madrugada, sua mãe foi procurar uma enfermeira, pois a pequena estava com 200 batimentos cardíacos por minuto e respirava com dificuldade.  Depois de algum tempo, recebeu a indicação de que o pediatra não estava onde deveria estar (cumprindo seu plantão), mas que o quadro era normal.

Sem confiar muito na informação, mas com pouca experiência, a mãe viu seu bebezinho espumar, revirar os olhos (como quem lhe pede socorro) e falecer, sem socorro médico, dentro do Hospital Municipal Lourenço Jorge, depois de 2 dias de internação.

Toda essa cena aconteceu às 3h30 da madrugada. O médico, só chegou para autorizar a transferência da criança às 6h, quando já não havia mais vida a ser salva. Onde estava esse profissional? Dormindo? Cumprindo outra jornada, em outro ponto da cidade?

“Mataram minha filhinha, tia” – ela gritava no telefone, quando me ligou pra dar a notícia.

É. Mais uma tragédia na minha casa, em conseqüência do silêncio do nosso povo, que é roubado pelo governo diariamente, chora as mortes dos seus filhos e acha isso normal.

E os nossos direitos humanos?! A cada dia me sinto uma cadela vira-lata, perdida em um beco escuro de uma sociedade que não me pertence. Isso não é ser cidadão.

Se precisarem de mim hoje:

Cemitério do Pechincha
Capela C – Sepultamento às 13 h de Ana Luíza Bastos, 11 meses de vida.

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